APRESENTAÇÃO
do livro de Caio Prado Jr.
A Questão
Agrária Brasileira,
São Paulo: Editora
Brasiliense, 2000 (5a. edição), pp. III-XXIII
José Eli da Veiga
Qual é o sentido de mais uma vez republicar artigos
sobre a questão agrária que Caio Prado Jr. escreveu nos quatro anos que
precederam o golpe militar de 1964? Os dois primeiros textos – de longe os mais
importantes – já têm quarenta anos, pois apareceram na Revista Brasiliense em 1960 e em 1962. É óbvio seu o valor para a
história do pensamento social brasileiro. Mas haveria também nessas reflexões
alguma coisa que em 2000 ainda possa ser considerada útil “contribuição para a
análise da questão agrária no Brasil”? Será que o próprio autor se teria
mobilizado por este relançamento?
Na “Nota Prévia” à primeira edição desta coletânea,
redigida um ano antes da Lei de Anistia, em novembro de 1978, ele justificou
esse “retorno” por constatar que naquele momento se partia “do mesmo ponto e
marco zero” no que dizia respeito à estrutura agrária brasileira. As mudanças
haviam sido de natureza a consolidar, repetir sob novas formas e estender os
velhos padrões do passado colonial. Isto é, o fornecimento e disponibilidade de
mão-de-obra de fácil exploração e custo mínimo. Em momento em que já percebia
“o fim do negro túnel em que se embarafustara a nação”, reabria-se a
perspectiva para a retomada dos legítimos e fundamentais temas a política
sócio-econômica brasileira, em que se destacava a questão agrária.
Essa justificativa era perfeitamente adequada cinco
anos antes do verdadeiro início da “abertura”, cujo marco foi a posse, em 1983,
de governadores livremente eleitos. A dúvida é saber se ela continua tão
pertinente após quinze anos de indiscutível redemocratização. Pode-se supor que
profundas mudanças teriam tornado obsoletos artigos escritos numa época em que
metade da população brasileira ainda era rural e mal despontava o sindicalismo
de trabalhadores rurais.
De fato, há muitas passagens nos três últimos
trabalhos, relativos à legislação rural-trabalhista e ao doutrinarismo dos
comunistas, que guardam muito interesse histórico, mas são hoje aspectos
anacrônicos da questão agrária. O mesmo não ocorre, todavia, com a abordagem
investigativa que precede esses textos mais conjunturais. E sua atualidade fica
clara na comparação entre a análise da estrutura agrária brasileira, que o
autor fez com base no Recenseamento de 1950, e as conclusões que se pode
extrair do último Censo Agropecuário de 1995/6.
No Brasil foi a grande exploração agromercantil, de
base territorial necessariamente extensa, que figurou no centro das atividades
rurais na generalidade de suas regiões e zonas geo-econômicas. E que foi em
função desse “setor principal” que se constituiu, se manteve, e evoluiu o outro
“setor secundário” das atividades rurais. Esse último setor, diz Caio Prado
Jr., se apresenta em duas formas: a) incluído nos grandes domínios,
constituindo aí atividade suplementar e marginal dos trabalhadores empregados
na grande exploração; b) constituindo atividade autônoma de pequenos produtores
que trabalham por conta própria em terras suas ou arrendadas.
A ênfase do autor nesse caráter bimodal da estrutura
agrária brasileira revela um flagrante contraste com o que ocorreu em todos os
países hoje considerados desenvolvidos. Mas não se deve entender essa divisão
em dois “setores” como trivial dualismo estático. Afinal, um dos principais
méritos da contribuição de Caio Prado Jr. foi justamente chamar a atenção para
o fato de que a importância e significado do dito “setor secundário” era função
inversa da maior ou menor expressão econômica, comercial e financeira da grande
exploração local e próxima. Isto é, diz o autor, o setor secundário se ampliará
e reduzirá na medida em que inversamente a grande exploração debaixo de cuja
sombra vive, se expande ou retrai, se consolida e prospera, ou pelo contrário
se debilita e decompõe. (cf. p. 53)
“A grande exploração, como empresa mercantil que é, sofre por essa sua
própria natureza, as contingências conjunturais que sua atividade implica. E é
tanto mais sensível a essas contingências comerciais, que lhe faltam
flexibilidade e plasticidade suficientes para se adaptar a situações variantes.
Concorre particularmente o seu acentuado caráter especulativo, isto é, o fato
de contarem sobretudo com estímulos imediatistas de grandes lucros a prazo
muito curto.” (p.52)
“É na medida em que a grande exploração rural
se expande e prospera, ou pelo contrário se retrai e entra em decadência, que
inversamente o setor secundário se restringe (no primeiro caso), e no outro se
estende e ganha terreno. É que quando a grande exploração se fortalece e
prospera, ou em outras palavras, se torna rendoso ‘negócio’, ela tende a se
ampliar e absorver um máximo de extensão territorial e força de trabalho. Sobrarão
tanto menos espaço e tempo disponíveis para os trabalhadores cuidarem de outras
atividades. Inversamente, é na medida em que se deteriora o negócio que a
grande exploração realiza, que ela se torna menos exigente e é obrigada a fazer
maiores concessões àquelas atividades secundárias que se desenvolvem à sua
sombra.” (p.53)
Tendo como referência essa abordagem que fundamenta
os dois primeiros e principais artigos desta coletânea, os dados censitários
devem ser entendidos como fotos instantâneas tomadas em determinados momentos
do processo co-evolutivo desses dois “setores”. Olhando para o instantâneo de
1950, o autor ressaltava que o “setor principal”, da grande exploração, detinha
75% da área total e dispunha de cinco milhões de trabalhadores rurais, entre
assalariados e parceiros, empregados a serviço alheio. O “setor secundário” era
formado por grande parte desses trabalhadores residentes em grandes fazendas,
mais uma infinidade de famílias que tocavam pequenos e médios estabelecimentos,
amontoando-se no quarto restante da área total, e ocupando quase sempre as
manchas de solo de pior qualidade. (pp.16-17)
O instantâneo tirado em 1995/6 mostrou que 785 mil
estabelecimentos patronais do “setor principal” ocupavam 63% da área total e
dispunham de quatro milhões de trabalhadores. O “setor secundário” era formado
pela diminuta parte desses empregados que ainda residiam em grandes fazendas,
mais 13 milhões de pessoas que viviam em 4 milhões de pequenos e médios
estabelecimentos, amontoando-se nos restantes 37% da área total.
Ou seja, no final do milênio, o essencial da
estrutura agrária brasileira continua a ser o bimodalismo engendrado pelos
“velhos padrões do passado colonial”. Durante a segunda metade do século XX,
saltou de 50% para quase 80% a participação dos urbanos na população total, e
nem todos os que continuam a fazer parte dessa minoria rural são dependentes de
atividades agropecuárias para sobreviver, ao contrário do que acontecia em
1950. Mas apesar dessa verdadeira reviravolta, quase não se alterou a
distribuição dos recursos naturais e humanos entre os tais dois “setores”.
Tanto os peões das grandes fazendas quanto a esmagadora maioria dos
agricultores familiares permanece nessa “deplorável situação de miséria
material e moral”, que, para Caio Prado Jr., era o cerne da questão agrária
brasileira (cf. p.31).
O essencial da pesquisa de Caio Prado Jr. que está
exposta nos dois primeiros artigos é sua conclusão de que somente uma política
que contrariasse efetivamente a concentração da propriedade agrária poderia
alterar tão odioso panorama. Mas não poderia ocorrer tal desconcentração se a
política agrária se limitasse à desapropriação de latifúndios ditos
“improdutivos”. E menos ainda se a necessidade de “amparo ao pequeno
proprietário e produtor” fosse usada como um subterfúgio para evitar a
transferência de terras de boa qualidade do “setor principal” para o “setor
secundário”. O autor denunciava que esse tipo de argumentação mal escondia uma
“sutil e insidiosa oposição à reforma agrária”. (cf. pp. 78-79)
É muito triste constatar – mas aqui está o busílis -
que foi justamente essa “sutil e insidiosa oposição à reforma agrária” que
predominou nos quarenta anos subseqüentes, fazendo com que a questão agrária
brasileira permaneça exatamente a mesma: a pobreza rural.
O drama não é
só nordestino
Por incrível que pareça, a pobreza não somente
continua proporcionalmente maior no meio rural de todas as regiões brasileiras,
como é na proa que essa distorção está mais acentuada. Enquanto na porção mais
miserável do país - o Nordeste - as diferenças espaciais são tênues, na sua
ponta mais exuberante - o Sudeste/Sul - a proporção de pobres no meio rural
chega a ser quase duas vezes superior à proporção de pobres no meio urbano,
como mostra a tabela 1.
(Porcentagens)
|
Regiões |
Metropolitano (%) |
Urbano (%) |
RURAL (%) |
|
SUL |
17,6 |
16,8 |
28,9 |
|
SUDESTE |
26,9 |
17,7 |
27,1 |
|
NORDESTE |
43,4 |
43,8 |
49,1 |
|
CENTRO-OESTE |
22,4 |
23,2 |
31,8 |
|
NORTE |
43,4 |
43,2 |
- |
BRASIL |
28,9 |
26,8 |
39,2 |
Nota: A partir de dados do IBGE/PNAD 1990; meio
rural do Norte não investigado pela PNAD e estado de Tocantins incluído em
Goiás. Fonte: Relatório sobre o
Desenvolvimento Humano no Brasil 1997, PNUD/IPEA
Esta singela constatação impõe pelo menos duas
observações sobre os rumos de desenvolvimento até aqui seguidos pela sociedade
brasileira. Por um lado, parece intrigante o fato da pobreza ser
proporcionalmente mais alta no meio rural, justamente no país que teve uma das
mais drásticas experiências históricas de êxodo em direção às cidades. Por
outro, isso indica que a manutenção do mesmo padrão de crescimento econômico,
mesmo que venha a reduzir bastante a pobreza urbana do Nordeste, poderá não ter
efeito equivalente sobre sua pobreza rural, a qual representa, sozinha, dois
terços da pobreza rural brasileira e um quinto de sua pobreza total, como
mostra a tabela 2.
Tabela 2 -
Participação do Meio Rural na Pobreza Brasileira, 1990
(Porcentagens)
|
Regiões |
Metropolitano (%) |
Urbano (%) |
RURAL (%) |
|
SUL |
2,0 |
4,5 |
3,9 |
|
SUDESTE |
17,8 |
10,8 |
4,7 |
|
NORDESTE |
7,6 |
18,5 |
19,0 |
|
CENTRO-OESTE |
0,8 |
3,6 |
1,5 |
|
NORTE |
0,9 |
4,4 |
- |
|
BRASIL =
100,0 |
29,2 |
41,7 |
29,1 |
Nota: A partir de dados do IBGE/PNAD 1990; meio
rural do Norte não investigado pela PNAD e estado de Tocantins incluído em
Goiás. Fonte: Relatório sobre o
Desenvolvimento Humano no Brasil 1997, PNUD/IPEA.
Quando se examina as características da pobreza
rural da parte mais desenvolvida do país, o que mais chama a atenção é sua
fortíssima ligação com a agropecuária. Os segmentos rurais ocupados em outras
atividades sempre têm uma renda média maior que a dos ocupados em atividades
agrícolas. Não pode haver dúvida, portanto, de que qualquer discussão sobre o
teimoso fenômeno da pobreza rural brasileira passa necessariamente pela
consideração das próprias características do setor agropecuário. E uma das mais
marcantes é o contraste com a estrutura ocupacional desse setor em todos os
países que atingiram altos índices de desenvolvimento humano.
Duas faces da
mesma moeda
Em todos os países desenvolvidos a agropecuária é
uma atividade de caráter principalmente familiar, enquanto no Brasil ela é
predominantemente de caráter patronal. Tamanha distorção resulta evidentemente
de uma herança histórica cuja marca essencial foi o desprezo e a intolerância
das elites pelas formas familiares de propriedade e uso da terra. Com a exceção
do fluxo colonizador que, partindo do extremo sul, permitiu uma certa afirmação
da agricultura familiar até o sudoeste do Paraná, o padrão agrário das demais
regiões foi semelhante ao que predominou no Leste europeu, onde as elites
preferiram impedir que suas populações rurais tivessem acesso à propriedade da
terra.
Desde meados do século passado, quando o Brasil
optou por uma estratégia inversa à norte-americana, as elites rurais
brasileiras tentam persuadir a sociedade de que essa é uma questão sem
importância, pois o caminho do campo só pode ser um: o da grande fazenda com
assalariados. O vocabulário pode ter mudado, mas o discurso continua exatamente
o mesmo: “promover a agricultura familiar é jogar dinheiro fora”.
No século passado, quando faltava mão-de-obra, os
grandes fazendeiros paulistas não faziam rodeios: “chamar colonos para fazê-los proprietários a custas de grandes despesas
é uma prodigalidade ostentosa, que não compadece com o apuro de nossas
finanças. (...) que se acabe o quanto antes com a enorme despesa que se
está fazendo com eles, continuando-se o que parecer necessário para eles
procurarem serviço...”, dizia o Senador Vergueiro.
Quase dois séculos depois, quando o que mais falta
são oportunidades de ocupação geradora de renda, seus sucessores só são menos
explícitos: “Não adianta querer
insistir na sustentação de modelos de produção que não sejam capazes de
propiciar a melhor relação custo-qualidade possível (...) a não ser que se
queira enterrar significativo volume de recursos públicos na forma de subsídios...”,
dizem os atuais porta-vozes do patronato agrário.
Nos Estados Unidos, onde as elites preferiram não
acabar com a “enorme despesa” a que se referia Vergueiro, e usar com muita
inteligência os tais “subsídios”, os resultados podem ser avaliados pela
comparação entre típicas localidades agrícolas. Onde predominou a agricultura
patronal há poucas escolas, igrejas, clubes, associações, jornais, empresas e
bancos. Nessas localidades, as condições de moradia são precárias, quase não
existem equipamentos de lazer e a delinquência infanto-juvenil é alta, ao
contrário do que ocorre onde predominou a agricultura familiar.
Mas não se deve pensar que essa é a única distorção
que contrasta a situação brasileira com a dos países desenvolvidos. Ela é
apenas a face principal , ou a “cara” de uma moeda que muitas vezes esconde a
correspondente “coroa”: a incongruência entre certas convicções das elites
urbanas - preponderantes entre os intelectuais orgânicos do atual governo - e
os fatos apontados por sistemáticas comparações internacionais.
A idéia de que a desigualdade não dificulta o
crescimento econômico, podendo às vezes até ajudá-lo, é uma crença que
permanece dominante entre os economistas brasileiros, mas que só pode ser
considerada anômala, e até extravagante, no debate internacional. Já se mostrou
que o crescimento alavancado por qualquer setor da economia só pode ser durável
se os benefícios do surto inicial forem distribuídos de maneira suficientemente
eqüitativa que permitam a expansão e o aprofundamento dos mercados. Tanto mais
favorável ao crescimento será o perfil da demanda quanto menos desigual for a
distribuição de renda.
Nos anos 1990, estudos sobre o impacto da
distribuição da riqueza e da renda no crescimento econômico passaram a
considerar também a influência exercida nessa relação pela variável política,
particularmente pelos processos eleitorais. E se chegou a duas conclusões
essenciais: i) a desigualdade na distribuição da propriedade da terra sempre
apresenta correlação negativa com o crescimento subseqüente; ii) quanto maior a
desigualdade de riqueza e de renda, menor o crescimento, principalmente nas
democracias.
Essas contribuições são certamente desconhecidas
pelos quadros intelectuais cuja influência poderia alterar o pensamento
governamental sobre o assunto. Provavelmente porque durante o processo de
redemocratização o debate brasileiro sobre o problema agrário tenha se
concentrado em outros aspectos, como se verá a seguir.
Uma das teses mais aceitas pelos intelectuais
brasileiros é de que existe um profundo dilema entre as dimensões econômica e
social da estrutura fundiária; ou seja, de que um mesmo padrão de distribuição
da terra não pode atender simultaneamente aos objetivos de eficiência e
eqüidade. Por isso, tendem a aconselhar a necessidade de uma estratégia
seqüencial que, em primeiro lugar, maximize o produto da terra e que, em
segundo lugar, distribua, como desejado, o seu produto. Isto ocorreria ou pela
via de preços mais baixos que a maior eficiência possibilitaria, ou então por
mecanismos de redistribuição de renda por vias fiscais.
Seguindo essa linha de raciocínio, os intelectuais
brasileiros com posições políticas mais à direita alegam que dois dos
principais argumentos a favor da visão distributivista da reforma agrária não
teriam sido confirmados pela pesquisa econômica. Esses dois argumentos seriam,
segundo eles, o da existência de deseconomias de escala na produção
agropecuária e o da maior eficiência de estabelecimentos de pequeno e médio
porte. Ou seja, ao afirmarem que tais argumentos não teriam sido confirmados
pela pesquisa econômica, só revelam ignorar os resultados das mais relevantes
investigações sobre esses assuntos.
Seria um ledo engano, contudo, achar que a visão de
dilema entre as dimensões econômica e social da redistribuição fundiária seja
um monopólio de intelectuais de direita. Ela é compartilhada por muitos dos que
têm posições políticas até antagônicas. Estes dizem que a reforma agrária não é
mais necessária, do ponto de vista econômico, permanecendo, todavia, como uma
possibilidade para um desenvolvimento que incorpore a dimensão social como
parâmetro importante das políticas públicas. A diferença, segundo esses
intelectuais de esquerda, é que, ao enfatizarem apenas a dimensão social, não
estão querendo diminuir o papel que os trabalhadores agrícolas podem vir a ter
no futuro. Acreditam que numa outra correlação - pelo menos mais democrática -
de forças da sociedade brasileira, será possível aos grupos sociais hoje menos
favorecidos, embora majoritários (como, por exemplo, “camponeses” pobres e os
bóias-frias), se fazerem ouvir na formulação das políticas agrícola e agrária
do País. Mas, por ora, o fundamental seria evitar a ‘lumpenização’ desses
grupos desfavorecidos.
Se essa radical separação entre as dimensões econômica e social, na forma de um grande dilema, é um denominador comum de pensadores de direita e de esquerda, não se poderia esperar que fosse diferente entre os que procuram se equilibrar no centro ideológico da dinâmica política. De fato, são eles os que melhor exprimem a visão dominante no atual governo, quando dizem que a bandeira da reforma agrária não desapareceu, mas mudou de ênfase, pois já não combina objetivos econômicos e sociais, como ocorria até meados dos anos 1960. Dizem que a industrialização cresceu consideravelmente, tornando o aspecto econômico da reforma agrária relativamente secundário nos dias de hoje. Desse modo, a reforma agrária teria se convertido apenas em questão de justiça social para com a massa dos ‘sem-terra’.
Esse vasto consenso supra-ideológico e
supra-partidário sobre o caráter apenas social, mas não econômico, da promoção
da agricultura familiar faz que os que remam contra a maré sejam vistos como
excêntricas aberrações. Mais isso não é o pior. O grande desastre é que a
negação da natureza econômica dos programas de expansão e fortalecimento da
agricultura familiar retira-lhes qualquer caráter estratégico, condenando-os a
uma duvidosa comparação entre custos e benefícios. Despida de qualquer sentido
econômico de longo prazo, a promoção da agricultura familiar tende a parecer
menos eficaz do que muitas outras formas de combate à pobreza.
O mais irônico é que ao empurrar o fomento da
agricultura familiar para o âmbito dos programas de assistência social,
principalmente por não se dar conta de sua importância econômica, o governo
acaba sendo acusado pelos representantes do patronato agrícola de estar
incentivando uma anti-histórica retenção de população no meio rural. Dizem que
o governo está indo contra a realidade do primeiro mundo.
Ora, a grande diferença entre as configurações
rurais de países desenvolvidos e de países subdesenvolvidos é a estrutura
ocupacional, particularmente o peso relativo da ocupação agrícola. Enquanto os
ocupados agrícolas são apenas um décimo dos ocupados no meio rural americano,
eles continuam a ser cerca de quatro quintos no meio rural brasileiro. É
preciso saber, entretanto, que a participação da ocupação agrícola na ocupação
total - que no Brasil é de 22% - varia bastante nos países desenvolvidos. No
Estados Unidos e o no Reino Unido ela é pouco superior a 2%, mas chega a 10% na
Áustria, a 7,5% na Itália, e a 6,4% no Japão.
Esses números indicam é que a atual superfície
agrícola útil do Brasil (em torno de 350 milhões de ha) pode comportar um
razoável aumento do número absoluto de ocupados em atividades agropecuárias.
Tomando-se como parâmetro de referência o valor médio dos quinze países que
formam a União Européia, a atual superfície agrícola útil brasileira poderia
suportar hipoteticamente um número de ocupados na agropecuária 20% superior ao
atual. Em outras palavras, quando o
peso relativo da ocupação agrícola brasileira tiver despencado dos atuais 22%
para apenas uns 5%, o número absoluto dos ocupados no setor agropecuário
brasileiro poderá ter aumentado 20%, sem qualquer expansão da superfície
agrícola útil.
A questão que se coloca, portanto, é a de saber qual
será a estratégia de desenvolvimento territorial da sociedade brasileira. Se
optar preferencialmente pelo modelo defendido pelo patronato agrícola, de
grandes fazendas - que há muito não ampliam a oferta de trabalho, e nas quais a
maior parte da área é consagrada à pecuária extensiva - o número de ocupados
por 100 ha de superfície agrícola útil certamente cairá dos atuais 5 para menos
de 3. Se optar preferencialmente pela agricultura familiar, haverá margem para
que essa relação se mantenha, ou até aumente. Em ambos os casos haverá queda
proporcional da ocupação agrícola, mas a pressão sobre o mercado de trabalho
urbano será muito diferente conforme a opção.
Se as perspectivas de geração de emprego urbano
forem bem favoráveis, a conservadora preferência pela agricultura patronal
continuará a ser perfeitamente viável, mesmo que desastrosa em termos de
distribuição de riqueza e de renda, e de seus impactos sobre o crescimento. Mas
se essas perspectivas não forem tão favoráveis, manter a preferência pela
agricultura patronal será uma atitude não só desastrosa, como cada vez menos
viável. Afinal, ninguém ignora que essas perspectivas são extremamente
desfavoráveis, justamente para o segmento dos trabalhadores não-qualificados.
As projeções indicam que a única maneira de evitar o aumento do desemprego
urbano, mantendo o atual padrão agrícola, seria a escolha reacionária de pisar
no freio do progresso tecnológico.
Duas variáveis devem ser consideradas em qualquer
tentativa de previsão sobre o nível de emprego: as taxas de crescimento do PIB
e a intensidade do progresso tecnológico. Estimativas revelam uma elevada
sensibilidade do mercado de trabalho brasileiro a essas duas variáveis. Mostram
sobretudo que a clivagem entre trabalhadores qualificados e não-qualificados
não poderá ser evitada. Projeções para 2005 indicam que a taxa de desocupação
dos qualificados não chegará a ser preocupante, podendo variar entre 2 e 5%.
Todavia, no que se refere aos não-qualificados, a situação é bem diferente.
Neste caso há risco de elevadíssimo desemprego. A taxa de desocupação dos
não-qualificados só poderá ser tolerável na hipótese de um lento processo de
inovações.
Os países que hoje fazem parte do primeiro mundo
optaram por não frear o progresso tecnológico e, por isso mesmo, adotaram no
início deste século uma série de políticas que permitiram a regulação do êxodo
rural e, sobretudo, um certo monitoramento do processo de transformação de
atividades exclusivamente agrícolas na chamada “pluriatividade”, isto é, a
simbiose familiar de ocupações agrícolas e não-agrícolas.
Isto quer dizer que não é apenas a necessidade de
combater a pobreza rural que legitima ações que redistribuem riqueza (como é o
caso dos programas de assentamentos) e que distribuem renda (como é o caso da
promoção da agricultura familiar em geral). O que é importante perceber é que a
ampliação e o aprofundamento dessas políticas serão cruciais para que a
economia brasileira possa ter rápida modernização sem que isso traga ainda mais
desemprego urbano.
Trata-se, portanto, de saber se ainda pode ser uma
alternativa viável e realista o abandono daquilo que Caio Prado Jr. chamava de
“padrões coloniais” ainda em vigor. Isto é, se ainda seria possível um
rompimento em favor da expansão e fortalecimento da agricultura familiar. E os
dados disponíveis sugerem que sim. Indicam que a base para um crescimento
agrícola com redução da pobreza está presente em todas as regiões, mesmo que em
situações muito diversas.
Apesar de numerosos no noroeste riograndense, no
oeste catarinense e nos sudoeste e oeste paranaenses, os agricultores
familiares encontram nessas mesorregiões condições de progresso material menos
favoráveis do que as existentes no nordeste riograndense e no Vale do Itajaí
catarinense. Apesar dos canaviais e laranjais do Sudeste terem asfixiado um
grande número de agricultores familiares, eles ainda mostram sinais de vida em
muitas microrregiões paulistas, inclusive no centro-norte formado pelas
divisões de Campinas e Ribeirão Preto. Continuam com muito fôlego na mancha
formada pelo sul e partes do centro e centro-oeste mineiros, o mesmo
acontecendo no corredor produtivo capixaba denominado “cinturão verde/turismo”
e nas regiões serrana e centro-sul fluminenses.
Malgrado as imensas dificuldades prevalecentes no
Nordeste, os agricultores familiares continuam no páreo, principalmente nas
regiões dos Agrestes, Serras do Ceará, Subcosteiras e Hortigranjeiras. E, dada
a recente ocupação dos imensos espaços regionais do Centro-Oeste e do Norte, a
precariedade de suas infra-estruturas e o marasmo de seus serviços, as
possibilidades de afirmação e consolidação dos agricultores familiares parecem
amplas, mas de avaliação e delimitação muito mais difíceis.
Ou seja, séculos de preferência pelo que Caio Prado
Jr. chamava de “padrões coloniais” não extinguiram a possibilidade de uma
transição para um padrão redutor de pobreza, mesmo que os estragos tenham sido
imensos. Só que os arautos do patronato agrícola brasileiro procuram
desqualificar a promoção da agricultura familiar dizendo que nos países ricos
ela depende de bilhões de dólares transferidos anualmente pelos consumidores e
contribuintes, e que aqui ela não teria a mínima chance de se tornar
competitiva.
No entanto, apesar dos quase dois séculos de
favorecimento da agricultura patronal, esta só vem se mostrando mais
competitiva que a familiar em alguns poucos produtos, como carne bovina,
cana-de-açúcar, arroz e soja. Em muitos outros, como as carnes suína e de aves,
leite, ovos, batata, trigo, cacau, banana, café, milho, algodão, tomate
mandioca e laranja, essa suposta superior “competitividade” da agricultura
patronal é muito duvidosa, principalmente se os produtores familiares não
estiverem condenados a ter apenas os parcos 20 ha, máximo que admitem lhes
atribuir os defensores da agricultura patronal. E se o assunto for
fruticultura, hortícolas, e uma infinidade de outros produtos, fica fácil
perceber que a melhor relação custo-qualidade sempre é encontrada entre produtores
familiares, mesmo quando dispõem de pouca terra.
Ou seja, até admitindo essa absurda visão que reduz
a eficiência econômica apenas à sua dimensão alocativa, descartando sua
dimensão distributiva, a agricultura familiar brasileira continua no páreo. E
se a relação dialética entre eficiência alocativa e eficiência distributiva -
que está no âmago da eficiência econômica - estiver presente no raciocínio, a
agricultura familiar brasileira mostra-se superior à patronal, apesar de todo o
desprezo de que foi vítima nos últimos 150 anos. Basta comparar o dinamismo do
Vale do Itajaí à tristeza do extremo sul gaúcho para se dar conta.
Isto não quer dizer que todos os agricultores
familiares conseguirão se manter no páreo, quando para melhorar suas condições
de vida forem obrigados a correr no tapete rolante da inovação tecnológica. Os
que estiverem na vanguarda certamente ampliarão sua estrutura produtiva,
comprando os ativos dos que decidirem se retirar da atividade. Os que não se
atrasarem em imitar a vanguarda também poderão manter-se competitivos. Mas uma
grande parte dessa massa só conseguirá progredir tornando-se “pluriativa”, isto
é, diversificar as atividades para que a renda familiar deixe de depender
exclusivamente da produção agropecuária.
Por haver criticado com muita perspicácia e acuidade
as vetustas teses comunistas (sobre a suposta existência de “restos feudais” no
campo brasileiro e outras coisas do gênero, cf. p.ex. pp. 65-68), Caio Prado
Jr. involuntariamente criou um batalhão de intérpretes mecanicistas que se
encarregaram de usar suas idéias para alimentar o mito de que a agricultura
capitalista tem necessariamente caráter patronal. Ocorre que em todas as
agriculturas do Primeiro Mundo, fazendas empregando levas de assalariados
tornaram-se mero apêndice de uma massa de estabelecimentos de médio porte
tocados essencialmente pelo trabalho familiar. A tal ponto que grandes fazendas
e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de subdesenvolvimento. Na
Europa é fácil achá-los em Portugal, Espanha ou Grécia. Mas é preciso muita
paciência para localizá-los na França, Alemanha ou Grã-Bretanha. Na América do
Norte, ainda são numerosos nas áreas próximas ao México, tornando-se cada vez
mais raros à medida em que se sobe para o Canadá. No Japão e em suas
ex-colônias será necessária uma lupa para descobrir assalariados agrícolas. Ou
seja, a crença desses maus discípulos de Caio Prado Jr. segundo a qual “o caminho do campo é o da grande empresa e
do trabalho assalariado” só faz sentido se esse caminho for o caminho do
subdesenvolvimento.
E será possível imaginar que tudo isso não passa de
uma coincidência? Que os países que atingiram os mais altos níveis
educacionais, de esperança de vida, e de PIB real per capita tenham todos optado por uma agricultura baseada no
trabalho familiar; enquanto os países com os mais baixos índices de
desenvolvimento humano (IDH) continuam a hesitar diante dela (e muitas vezes nem isso)?
Os estudiosos que duvidaram que se tratasse de mera
coincidência dedicaram-se a pesquisas comparativas e encontraram fundamentos
econômicos, sociais e políticos para o fenômeno. Mas esses fundamentos costumam
estar tão ligados às circunstâncias históricas específicas de cada país que
fica muito difícil juntá-los numa única síntese explicativa. A mais completa e
profunda análise da questão foi recentemente publicada na França por Marcel
Mazoyer e Laurence Roudart, professores do Institut National Agronomique
Paris-Grignon: Histoire des Agricultures
du Monde; Du Néolitique à la Crise Contemporaine (Ed. Seuil, Paris:
Novembro 1997). Nesse livro, que
deveria ser traduzido para todas as línguas vivas por ser a melhor e mais
completa síntese já produzida sobre quase dez milênios de crescimento
econômico, encontra-se não somente a melhor interpretação do contraste atual
entre as agriculturas desenvolvidas e subdesenvolvidas, como o esboço do
arranjo internacional necessário à promoção da agricultura familiar nos países
subdesenvolvidos.
Ao analisar a dinâmica agrícola dos países
desenvolvidos, Mazoyer & Roudart enfatizam que todos eles foram levados a
adotar políticas de sustentação de preços que impediam reduções abruptas da
renda média dos agricultores e, simultaneamente, políticas visando a uma
aceleração da chamada modernização: organização da comercialização; crédito com
taxas de juros favorecidos; aumento dos prazos de arrendamento; renovação de
sistemas de pesquisa intimamente relacionados com os correspondentes sistemas
educacionais e correspondentes redes de experimentação-informação-e-vulgarização
agropecuária; transferência a agricultores em processo de consolidação das
terras liberadas pelos estabelecimentos cessantes ou em dificuldade,
principalmente pelo incentivo à aposentadoria dos agricultores mais idosos;
leis proibindo o acúmulo de mais terras por agricultores que já dispunham de
área suficiente para o pleno emprego da mão-de-obra familiar; e vários
mecanismos que impediam o acesso de estabelecimentos pouco viáveis às
subvenções e ao crédito barato.
No fundo, dizem os autores, esses programas
facilitaram o desenvolvimento de estabelecimentos familiares médios e grandes,
impedindo, em certa medida, o desenvolvimento de grandes fazendas com
mão-de-obra assalariada. Por outro lado, ponderam que o mínimo que se pode
dizer é que tais medidas não ajudaram os estabelecimentos menos viáveis, mas
também não os fizeram desaparecer brutalmente. No final das contas foram
medidas que impulsionaram o desenvolvimento desigual de estabelecimentos médios
e grandes, garantindo ao mesmo tempo a sobrevivência dos periféricos pelo
período de uma geração.
Ou seja, as agriculturas dos países desenvolvidos
foram enquadradas por políticas comerciais, financeiras, e de fomento que não
corresponderam à visão de muitos economistas e agrônomos segundo a qual a
modernização (motomecanização, fertilização mineral, seleção vegetal e animal,
agrotóxicos, etc.) levaria cedo ou tarde à generalização de enormes unidades de
produção, fossem elas patronais ou coletivizadas. Isto quer dizer que essas
políticas contrariaram o que seriam as tendências objetivas do desenvolvimento
capitalista na agricultura? De maneira nenhuma, mostram Mazoyer & Roudart.
Se elas contrariaram alguma coisa foi a ingenuidade das previsões feitas por
economistas e agrônomos impressionados com a forte aceleração das mudanças
agrícolas do século XX.
Uma das melhores partes dessa História das Agriculturas do Mundo é a descrição analítica das
etapas em que se deu a “modernização”, fenômeno que os autores preferem chamar
de “segunda revolução agrícola dos tempos modernos”. A cada etapa desse
processo, só puderam continuar a investir e a progredir os estabelecimentos
suficientemente equipados, suficientemente grandes e suficientemente produtivos
para que pudessem gerar uma renda por trabalhador superior ao preço de mercado
da mão-de-obra pouco qualificada. Esse nível de renda constitui o que os
autores chamam de ‘patamar de
capitalização’ ou ‘patamar de
renovação’. Os estabelecimentos que conseguiam se consolidar eram os que
geravam uma renda superior a esse patamar. Os que geravam renda inferior a esse
patamar e não se renovavam, terminavam por regredir: viviam em crise, e, com enormes sacrifícios,
muitos conseguiam se manter até a aposentadoria do agricultor. Depois disso, na
falta de um sucessor (parente ou não), esses estabelecimentos tendiam a ser
desmembrados e suas terras e outros bens ainda úteis adquiridas por
estabelecimentos que se encontravam acima do referido patamar.
Como as inovações tecnológicas que permitiam
acompanhar a constante elevação do patamar podiam sempre ser adotadas por
muitos dos agricultores familiares que participavam dessa espécie de corrida de
obstáculos; e como a queda tendencial dos preços agrícolas era administrada por
governos interessados numa certa regulação do êxodo rural; o desempenho
econômico da agricultura familiar só podia ter contrariado as profecias sobre
uma esmagadora vitória da agricultura patronal.
Na verdade, muitas dessas profecias baseavam-se
também numa idéia bem equivocada sobre a importância que as chamadas ‘economias
de escala’ ou ‘economias de tamanho’ teriam na agricultura. Mas as reduções dos
custos fixos ligadas aos aumentos de escala ou de tamanho mostraram-se pouco
significativas na agricultura. Quando são possíveis, elas só são realizáveis
até um tamanho bem modesto, correspondente a uma pequena equipe de trabalho.
Acima desse tamanho passam a se manifestar deseconomias que aumentam com muita
rapidez. Para a maior parte dos sistemas de produção praticados hoje em dia nas
agriculturas dos países desenvolvidos, dizem Mazoyer & Roudart, a dimensão
mais favorável à eficácia econômica de uma unidade de produção corresponde ao
trabalho de equipes que variam entre 3 e 7 trabalhadores. E, mesmo assim, os
estabelecimentos tocados por um único trabalhador (a tempo completo ou parcial)
vêm se mostrando tão competitivos que seria muito arriscado prever o triunfo de
unidades de tamanho correspondente a uma equipe de 3 a 7 trabalhadores, sejam
elas familiares, patronais ou de outro tipo.
Tudo isso é parte muito importante da argumentação
favorável à promoção da agricultura familiar porque mostra que essa tese está
longe de ser uma mera ideologia em defesa dos pobres do campo, cujo conteúdo
seria anti-histórico e anti-econômico. Por incrível que possa parecer à maioria
dos leigos em assuntos agrícolas, acontece justamente o inverso: é a obsessão
ideológica de certas elites brasileiras pela agricultura patronal que carece de
qualquer respaldo histórico e econômico no processo de desenvolvimento dos
países que fazem parte do chamado Primeiro Mundo.
Mas é claro que a opção pela agricultura familiar
como base de uma proposta de desenvolvimento rural no Brasil de final de
milênio não se baseia apenas na constatação de que essa foi a forma que
predominou em todas as agriculturas de países desenvolvidos. Para saber porque
o predomínio de grandes fazendas patronais que dispõem de uma abundante e
baratíssima força de trabalho constitui um obstáculo ao desenvolvimento é necessário
perceber seus efeitos fortemente regressivos na distribuição de renda.
Considere-se, por exemplo, economias
latino-americanas, como a brasileira ou a mexicana, e economias
semi-periféricas muito mais desenvolvidas, como as da Coréia do Sul ou de Taiwan.
O contraste começa a aparecer quando se compara o potencial de consumo de suas
respectivas populações. Nas economias de tipo latinoamericano, as populações
rurais economicamente ativas estão naquilo que Caio Prado Jr. chamou de “setor
secundário”, formado majoritariamente por peões (sem terra ou sitiantes abaixo
do patamar de renovação) que trabalham para um punhado de empregadores (cf. pp.
52-53). Nas economias semi-periféricas de sucesso essas famílias de peões não
chegam a 3% dos ocupados no meio rural. Lá a grande maioria da população
agrícola está ocupada em sítios com renda igual ou superior ao patamar de
renovação.
É claro que em países como a Coréia do Sul e Taiwan
a demanda rural depende essencialmente da renda corrente dos agricultores familiares,
enquanto que no México ou no Brasil ela depende basicamente do poder de compra
de uma enorme massa de peões. Como esses peões situam-se sempre nos mais baixos
estratos de distribuição de renda, seu poder de compra não chega a favorecer a
ampliação do consumo de massa. A evolução do poder de compra dos 20% mais
pobres de populações latino-americanas tem oscilado pouco acima do nível
atingido em meados do século, enquanto que o consumo das camadas de altas
rendas tem crescido se forma permanente.
Nos países semi-periféricos que conseguem se
desenvolver ocorre exatamente o inverso. A elevação da renda da maioria da
população rural acompanha de perto a evolução da renda média urbana,
contribuindo, portanto, para a ampliação do consumo de massa. A drástica
reforma agrária realizada na Coréia do Sul, por exemplo, não somente engendrou
pouca desigualdade na distribuição dos ativos e da renda, mas também criou as
pré-condições para uma ampla difusão dos incrementos de renda.
Em suma, com base na experiência histórica dos
países mais desenvolvidos e dos raros países semi-periféricos que chegaram a se
desenvolver, deve-se pensar que a passagem da economia capitalista para sua
fase socialmente articulada de desenvolvimento dificilmente pode prescindir de
um conjunto de políticas públicas que venha a permitir a liberação do potencial
da agricultura familiar. E as vantagens de uma estratégia de desenvolvimento
rural que priorize a promoção da agricultura familiar começam a ser percebidas
pela sociedade brasileira. Principalmente porque o Brasil é um país onde a
forma de agricultura mais favorecida - a patronal - agora está empregando cada
vez menos trabalhadores, e engendrando, portanto, cada vez mais concentração de renda e exclusão social.
Enquanto isso, a forma de agricultura mais
desprezada - a familiar - tende a exibir um perfil essencialmente distributivo,
além de ser incomparavelmente melhor em termos socio-culturais. E seus sistemas
poliprodutivos de cultura e criação, aliados à maior maleabilidade de seu
processo decisório, também trazem imensas vantagens comparativas sob o prisma
ambiental.
Enfim, a agricultura familiar é tão mais sustentável
(estabilidade, resiliência e eqüidade) que é impossível imaginar que a
sociedade brasileira não venha a se dar conta do preço que está pagando por ter
acreditado no mito da maior eficiência da agricultura patronal, que Caio Prado
Jr. chamou de “setor principal” (p.52). Um dia acabará entendendo que mesmo
essa sua duvidosa eficiência alocativa nem de longe compensa sua absurda
ineficiência distributiva. Contudo, para que isso ocorra vai ser preciso
superar a crença dominante entre as elites brasileiras de que a desigualdade
não dificulta o crescimento econômico, podendo até ajudá-lo. Essa é uma idéia
que no debate internacional só pode ser considerada anacrônica, e mesmo
extravagante, mas que continua muito forte por aqui.
Infelizmente, é forçoso reconhecer que em pleno
final do século XX a cultura brasileira continua muito mais marcada pela ‘casa
grande e senzala’ do que pelas ‘colônias’ formadas pelos imigrantes italianos e
alemães que povoaram a região Sul, ou mesmo mesmo pelos “colonos” que
conseguiram se emancipar das complicadas relações de trabalho que prevaleceram
na economia cafeeira do Sudeste. E sobre este ponto há um verso que vale mais
do que mil teorias:
“Nel Brasile non vi sono padrone,/ Ognuno qui é padrone di sè./ In sua
casa il colono commanda/ E si stima ugualmente un re”.
Foi contra essa via de desenvolvimento que lutou Vergueiro.
É contra ela que continuam a lutar seus sucessores. Daí a importância crucial
deste oportuno relançamento da coletânea
A Questão Agrária de Caio
Prado Jr. Muito além do valor histórico desses seis artigos está a atualidade
cognitiva de suas análises e, sobretudo, o caráter emancipatório das idéias
desse que foi com certeza um dos mais brilhantes pensadores brasileiros do
século XX. Só seremos merecedores do capital intelectual que nos legou se
formos capazes de acabar com a deplorável situação de miséria material e moral
que continua a dominar o campo brasileiro.
José Eli da Veiga
São Paulo,
21 de Abril – 24 de Maio de 2000